CORITA KENT, A FREIRA DA POP ART

Bruscamente, neste verão de 2013, duas paredes da Caixa Geral de Depósitos [Culturgest, Lisboa] transformam-se numa improvável catedral. Não se espantem. Na exposição ali patente, “Tell It To My Heart”, que reúne a coleção de Julie Ault, há uma secção fora do formato, em muitos sentidos. É a oportunidade imperdível para contactar com um conjunto radical de arte sacra assinada por uma freira de olhar doce, a irmã Corita Kent [1918-1986].

corita_kent_20130813_gf_3

Contemporânea de Andy Warhol e de Rauschenberg, ela foi talvez a primeira artista a trazer uma dimensão religiosa à pop art. Enquanto Warhol celebrava em Nova Iorque (com mais ironia do que reverência, é verdade) a cultura de consumo e os seus ícones, Corita, numa escola de freiras em Los Angeles, utilizava a tipografia comercial e o grafismo da publicidade para comunicar outros ideais: a fé, a paz, a participação das mulheres na vida social, os direitos civis, a luta contra o racismo.

E ela justifica-se assim: “Hoje a satisfação inifinita daquilo de que o homem tem fome surge-nos não só nos contos de fadas ou nos poemas, mas em outdoors, anúncios e reclames televisivos. Quanto aprendemos a fazer com os mitos e parábolas, deveríamos também aplicar aos painéis publicitários. Em certo sentido, é tão simples como isto: tomá-los pelo que são, sinais. Glória a Deus pelas paisagens urbanas – elas tresandam de sinais. Glória a Deus pelas revistas dos escaparates – elas transbordam de publicidade.”

corita_kent_20130813_gf_4

No mesmo ano em que Andy Warhol apresenta as famosas latas de sopa Campbell (o ano de 62), a irmã Corita pega num slogan da Pepsi (“Come alive, you’re in the Pepsi generation!”) e transforma-o em “Come Alive!”, uma espécie de alogio à vida.

corita_kent_20130813_gf_2

Era este o seu estilo: cortar, colar, recompor, recontextualizar o prolífero arsenal da cultura popular, tentando identificar onde quer que fosse, e sem nenhum tipo de constrangimento, uma mensagem de espiritualidade e de amor.

 

O Espírito sopra, de facto, onde quer. Não admira que a irmã Corita juntasse, nas mesmas serigrafias, ditos de Jesus e extratos da banda desenhada do Snoopy, canções do Beatles e textos de santos, discursos de Martin Luther King Jr. e frases de Beckett, poemas de Walt Whitman ou Rilke e palavras de ordem do grupo de rock psicadélico Jefferson Airplane.

corita_kent_20130813_gf_1

Memoráveis são também as regras que, segundo ela, deveriam inspirar todo o trabalho de criação.

Regra um: procura um lugar que julgues de confiança e experimenta confiar nele por algum tempo; regra dois: deveres gerais de um estudante – aproveita o melhor possível o teu professor; tira o melhor partido dos teus colegas; regra três: deveres gerais de um professor – retira o melhor dos teus alunos; regra quatro: considera tudo uma experiência; regra cinco: sê autodisciplinado – isso significa encontrar alguém sábio ou inteligente e escolher segui-lo; ser disciplinado quer dizer segui-lo bem; ser autodisciplinado quer dizer segui-lo melhor: regra seis: não existem erros; não existem vitórias ou derrotas, só existe o fazer; regra sete: a única regra é o trabalho; se trabalhares, isso vai levar-te a alguma parte; são as pessoas disponíveis, a cada momento, para qualquer trabalho, que conseguem fazê-lo; regra oito: não tentes criar e analisar ao mesmo tempo; são processos diferentes; regra nove: sê feliz sempre que possas; diverte-te; é mais fácil do que pensas; regra dez: “Quebremos todas as regras. Até mesmo aquelas que inventámos para nós próprios” (John Cage);

sugestões: continua sempre por perto; vai ou volta dos vários eventos; participa nas aulas; lê tudo aquilo que te cai nas mãos; vê os filmes com cuidado e muitas vezes; guarda tudo – pode vir a ser-te útil mais tarde.

 DAQUI A freira da Pop Art | José Tolentino Mendonça | In Expresso, 10.8.2013 | Imagens: Trabalhos de Corita Kent

A PEQUENEZ

Das leituras matinais que não posso deixar de partilhar. Do portal do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura continuam a chegar, diariamente, reflexões onde vale a pena fazer estação neste nosso SÍTIO do Girassol. Hoje o texto de Joan Chittister aborda aquilo que precisamos de continuar a perseguir –  a humildade. Não tenho nenhuma dúvida que “Cada um de nós tem qualquer coisa que o resto do humanidade precisa”, pessoalmente sinto que a dificuldade reside tantas das vezes em saber colocar isso em prática da forma que Deus quer e que a humanidade precisa.

fimdesemanices4.jpg

O maior obstáculo à vida espiritual é a tentação de fabricarmos o nosso próprio Deus.

Uma coisa é conhecer os meus dons e cultivá-los. E outra, bem diferente, é presumir que os possuo todos. O desenvolvimento dos nossos próprios dons é uma tarefa do ser dotado. Foram-nos dados talentos naturais para que os desenvolvamos em favor dos outros. Cada um de nós recebeu qualquer coisa que se destina a tornar o mundo melhor para todos. Cozinhamos, cantamos, ensinamos e escrevemos, limpamos e organizamos de tantas maneiras “incomumente” comuns. Cada um de nós tem qualquer coisa que o resto do humanidade precisa.

fimdesemanices2.jpg

Estou aqui para dar os meus dons ao mundo, para me comprazer nos dons que Deus me deu, sim, mas só se for para o bem dos outros. Cada um de nós é apenas um elo na cadeia que deve trazer toda a humanidade, e tudo na Criação, à plenitude. Aquilo que eu sou e tenho devo dá-lo ousadamente, completamente, para o bem do mundo. Se não reconhecer os meus dons, se não os desenvolver, não posso, de forma nenhuma, cumprir em mim o propósito pelo qual fui criada.

Ao mesmo tempo, é inteiramente destrutivo – acima de tudo, para mim própria – presumir que, pelo facto de eu ter um dom, tenho todos os dons, e que os demais não têm dom nenhum. Que o meu dom ultrapassa todos os outros, que me dá direitos que os outros não têm, que me autoriza a viver acima e para além do resto da raça humana. Isso é duma terrível arrogância. Destrói todos os nossos relacionamentos, quer humanos, quer divinos.

A arrogância corrói a nossa consciência do poder da interdependência e deixa-nos a morrer incompletos. Reduz a pó a criação dos outros. Até nos impossibilita de ver as nossas necessidades.

fimdesemanices.jpg

Sem capacidade de «dobrar os nossos joelhos teimosos » perante aqueles que são igualmente dotados, perdemos também a capacidade de dobrar os nossos joelhos perante o Criador, que fez de nós, de cada um de nós, um dos feixes de luz brilhante da beleza divina que, juntamente com todos os outros, reflete o esplendor que enche o mundo.

É a nossa necessidade uns dos outros que nos mostra a necessidade que temos de Deus. É a nossa profunda incompletude que grita todos os dias das nossas vidas para ser completada – pelos que nos rodeiam e por Deus.

Temos de rezar pela humildade, tão necessária para encontrar a nossa plenitude na nossa pequenez.

fimdesemanices5.jpg

TEXTO DE Joan Chittister | In O sopro da vida interior, ed. Paulinas | 16.07.13 DAQUI

AI PORTUGAL

03072013-jornal_de_negocios_detail“Ai, Portugal, Portugal 

De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar”*

Enquanto vivermos numa sociedade onde reina o UMBIGUISMO, onde cada um se tenta orientar para si e coloca os seus interesses e dos seus acima do bem comum, fica dificil mudarmos de rota e de destino.

Ai, Portugal e Portugueses, enquanto ficarmos à espera que os outros mudem, que os outros façam, que os outros sejam pessoas íntegras e atuem em conformidade, que os outros decidam, e sejam boas pessoas é como esperar que os nossos filhos sejam aquilo qiue nós não SOMOS ou nunca fomos. Só podemos esperar dos outros aquilo que somos e OS PORTUGUESES E PORTUGAL não mudam enquanto a maioria de nós  não for «homens e mulheres com os outros e para os outros, verdadeiros campeões no serviço aos outros» (Papa Francisco), que é como quem diz também “Be the change you want to see in the world…”.

No regresso deste fim de semana mais UM AZAR com a carrinha trouxe nova aventura. Uma viagem de táxi alucinante, desde a saída da A1 de Trofa até casa, com um taxista, comunista assumido desde o 1º quilómetro, sem qualquer papa na lingua, que não se cansou de cortar nos políicos, no governo, em todos os partidos, nos funcionários públicos, NA IGREJA e em todos OS QUE AINDA NÃO HONRARAM O 25 DE ABRIL. É que desconfio que ele concordasse com alguma coisa, à exeção de que a mulher era uma moça muito bonita, que estava bastante calor e que este país “é evidentemente uma miséria”. Aquilo foi a lenga lenga crítica dura de cima a baixo . Mas a bota não batia com a perdigota e o senhor taxista, agora reformado da função pública a receber na ordem dos 1200€, trabalha de taxista, mas em tempos foi guarda noturno numa escola e contou com todo orgulho do Português que se safa e engana o estado que deixava o cão de guarda entre as 2h e as 5h da manhã a fazer a guarda e que nunca lá passava a noite, “eu? isso é que era bom!”, disse à Zé Manel. Passou o tempo todo o enganar a entidade patronal…e isto é apenas 1% dos exemplos que ouvimos nos 120 km de conversa. Dava para fazer um inventário das diferenças entre o que  SOMOS, O QUE DEFENDEMOS E O QUE FAZEMOS.

Uns exames de consciência e uns espelhos de vez em quando, não nos faziam NADA MAL!!!!

* Da música PORTUGAL, PORTUGAL | Jorge Palma, (vale a pena atentar na letra…)

SANTAS, SUBMISSAS E REBELDES? NÓS?

[APARTE: não sendo original, nest post de partilha, faz todo o sentido DIFUNDIR esta mensagem, partilhada primeiramente pela Ondina Matos, diretora do SDPJV Aveiro, amiga do coração –  cujo trabalho ao serviço da pastoral juvenil, admiramos e acompanhamos de perto –   que comprova que o lugar das mulheres é no centro da ação Pastoral, não pode ser de outra maneira ]

PERGUNTADomingo amanheceu verdadeiramente luminoso, de céu imensamente arejado, talvez por isso, e porque a vila esteve mergulhada em consternação desde os primeiros momentos da madrugada, sentimos necessidade de agarrar nos meninos e em nós e zarparmos para subir a serra. Precisávamos de céu, horizonte e contemplação.

A começar a subida ao Caramulo, folheando o Público, nem de propósito…mais do que o título povocador e aos S’s, chama-me a atenção a pergunta a azul…na companhia habitual das opiniões dominicais do Frei Bento Domingues.

Ainda que a confusão no banco de trás se tenha mantido ao rubro, durante toda a leitura e releitura, por causa de um chapéu de sol, o texto mereceu comentários de casal e orelha dobrada na página para a partilha oportuna. Agora aqui…
Ao ler e reler o artigo, fui pensando e digerindo aquela súmula que me tem andado a meter comichão no coração, mas que por falta de tempo, certamente, de conhecimentos também, mas sobretudo de paciência para fazer frente a TANTA VERDADE, este assunto da presença e do espaço das mulheres em igreja não tem passado de reflexão apressada e conversas com amigas que sentem o mesmo…
A verdade é que aquilo que acontece atualmente a partir da Igreja, relativamente às mulheres, na minha modesta opinião, não corresponde à realidade, muito pelo contrário  – como comenta e bem a Helena na Tribo de Jacob do Jorge –  “falseia o sentido de família universal que a Igreja deve perseguir”. Como ela bem sublinha“tenho pena que radique em medos, moralismo e numa visão distorcida sobre as mulheres” e é ingrato e muito redutor, como sublinha Bento Domingues,  ” persistir em opções que desconvocam, logo à partida, a maioria dos cristãos, as mulheres”.
Esta persistência da hierarquia católica em não contar com elas para conceber, projectar, orientar e realizar a missão da Igreja no mundo contemporâneo, é considerada altamente negativa, em alguns ambientes eclesiais, embora noutros, essa situação ainda se possa apresentar como absolutamente normal, pois “sempre foi assim”.
Este último argumento só pode ser usado por quem não vê o papel activo das mulheres em todos os sectores das sociedades ocidentais. Portugal não é excepção. Não procurar alterar o funcionamento da Igreja, tendo em conta esta tendência irreversível, parece cegueira, fuga aos sinais dos tempos, tantas vezes evocados em vão…”

Frei  Bento Domingues, Jornal Público de 3/2/2013Bento Domingues Santas, submissas e rebeldes