222# ESTAÇÃO DE OUTONO

Uma descida acentuada. Um dia a meio. Um caminho bucólico de quadro impressionista e o sol a pique. Uma hora de outono para dois. Brincadeira pegada, sapatos molhados, folhas voadoras. Uma quinta “ia-ia-ó” devolvida no eco e folhagem de perder de vista quando mandamos os olhos ao ar.
Todas as tonalidades preferidas ali, naquele ramalhete que borda as fronteiras da descida onde já tombámos este verão de bicicleta. Onde tudo era verde, onde a terra seca arranhou os joelhos no deslize da roda.
A oeste da Terra dos Que Vivem Aqui paisagens como esta, exuberantes, lindas e gratuitas, ignoradas por tantos que preferem percorrer as montras da paisagem comercial ou mantém fechadas durante tempo infinito e dias a fio as persianas, os estores e as portadas dos pequenos fortes onde se excluem do magnifico paraíso que (n)os rodeia. Onde mantém à margem o sítio onde vivem, sem o deixarem entrar em casa. Porque a nossa terra não é só um sítio onde vivemos, é um território que passa a viver connosco, não? Que nos entra e entranha casa adentro e não fica no tapete onde sacudimos os pés…
Lamento tanto esta privação voluntária a que tantos se submetem. É um lamento verdadeiro, sentindo que deslumbrados vivemos mais felizes com as coisas simples desta vil(d)a, que de este a oeste, entre o norte e o sul, oferece o que é de todos. E é uma pena privarem esta vila feliz de tanta contemplação, da diversidade de tons de voz, dos risos na descoberta da vizinhança que vai além das traseiras e dos quintais, e de deixarem os passos seguirem pelas ruelas e recolhas fortuitas de folhas e pedras, ouriços e musgo.

Porque a crise ainda não chegou à contemplação e não há imposto que nos impeça de degustar o outono, devagar, para apreciarmos com especial carinho cada estação que (re)veste a nossa vila feliz de forma gratuita e tão magnífica. Pode ser que o menino das folhas cresça a achar que do outro lado do caminho das videiras continue a existir um outro Sebastião a gritar outono como ele, depois dele…