207 # SALVADOR PINTOR

Folheando um livro de pintura de Raquel Oliveira deixámos de o ouvir,  entretidos cada qual com seus assuntos na mesa que partilhamos no escritório. O irmão recortava um P2 do Público para guardar o homem aranha e seus amigos heróis. Quando nos veio mostrar a sua obra quase finalizada ficámos ambos espantados. Um desenho a cera cujo nome seria O ROBE, inspirado numa série deles de Raquel Oliveira. Soletrei-lhe o título, ele escreveu e assinou. Depois ainda foi colar e recortar e fazer aquilo que para ele é um quadro a sério. Hoje regressei à obra deste pequeno, aqui pousada ao lado do meu trabalho matinal. É tão bom sentir esta curiosidade pelo que os rodeia…

Há muito tempo que este livro, oferecido pelo Museu da Água em 2004 por ocasião de um programa feito nesse Museu lindíssimo, repousava entre outra meia dúzia de uma coleção da Taschen. Aos poucos os outros foram sendo abertos e folheados com frequência, mas este, da Raquel Oliveira, foi ficando fechado, arrumado, no fim da pilha. Até percebi, além de pesado, para um miúdo não era muito convidativo de capa para quem escolhe sobretudo com os olhos.
O que saiu de lá, em desenho pelos blocos de cera do Salvado,r levaram-me a folhear o que estava arrumado há anos e a percorrer boas memórias com o que desenhou, escreveu e assinou.

“A Raquel nasceu e viveu numa quinta. Isso dá-lhe a forte dimensão terra que a levou a inaugurar o seu percurso artístico com um instalação campestre em que eram protagonistas a terra, as árvores e o fogo num espaço vasto, aberto e musical.
Esses elementos naturais trouxe-os consigo para a cidade e foi deixando que emergissem aqui e ali (…)” Helena Vaz da Silva, sobre a obra e autora no início do livro.

26 # MIRÓ & RUY BELO

(ultimamente, quase sempre que me apetece partilhar um poema tenho uma imagem em mente?)
 (…)
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
                                                                                                    o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
(…)”
     
Tu estás aqui” Ruy Belo, Ruy Belo, Toda a Terra Todos os Poemas, Assírio & Alvim, 2000