129# (BIS)AVÓS & CASAS COM HISTÓRIA(S)

A avó Alice tem uma casa, mesmo na freguesia vizinha. Separam-nos meia dúzia de quilómetros. Diz-se que a Palhaça é defeituosa por causa disso mesmo “ter Nariz” ao lado. Uma brincadeira de palavras que fomos aprendendo desde crianças. A casa da avó é grande, outrora da cor do vinho. Agora desbotada, tem vindo a ganhar fendas e teias de aranha em todos os cantos, mas nós gostamos dela assim, da casa, mas sobretudo da avó. A única que ainda nos pode abraçar, rir-se com as graças dos bisnetos e resmungar com a ousadia e juventude dos netos.
Sempre que lá vamos descobrimos recantos e pormenores que desfiam histórias ternurentas. Daquelas que saem da infância da mãe e que fazem sorrir e arrastam perguntas de meninos curiosos. Gostam sempre de saber qual era o meu quarto quando ali passava as férias, de subir à eira do milho e de espreitar o que se vai fechando porque não se usa e a casa ficou grande demais para uma velhinha sozinha.


A casa da avó guarda muito boas recordações e é em torno delas que os entretenho, num domingo, à procura dos caracóis brancos pelo sol ou a contar pela enésima vez as histórias do porco que soltámos no pátio para assustar os primos e a cal que nos pareceu uma bela solução para a pintura de carnaval improvisada, não fosse ela queimar os rostos dos primos aventureiros!


Em casa da avó, em Nariz, quase tudo envelhece , menos as memórias de infância, os candeeiros do tecto e os retratos de família. Quase tudo nos mesmos sítios de sempre: os quadros com o Eusébio, a Última Ceia e aquele rústico da Venezuela. Até a caixinha de música se calou e ficou manca, no mesmo sítio de sempre.
A verdade é que lsempre que ali estamos, o que menos importa é a velhice da casa, connosco todas as  janelas se abrem de par em par, com as cadeiras temo cuidado, e o parapeito volta a acolher as dálias do quintal da avó. A brisa de domingo volta a entrar almoço adentro e suaviza as saudades dos outros avós que gostaríamos de ter entre nós. Os que iriam certamente apreciar as observações e os risos, as gargalhadas e as correrias dos meninos felizes. Eles que multiplicariam abraços e colos para todos os bisavós.
Saudades boas as que me invadem quando o vejo correr no pátio onde aprendi a andar de bicicleta sem rodas e onde tantas vezes saltei da carroça da vaca amarela em movimento, testando a paciência do avô Manel. Recordações que fazem com que as casas tenham histórias.

Amanhã a avó Alice vai sair bem cedo, da casa cor de vinho, para apanhar boleia para a sua primeira praia do ano. Ou muito me engano ou será um dia de mimos para um bisneto com muita sorte. 

29# AVIADORES DE PEIXES NUMA PRAIA SÓ PARA NÓS


Muro fora seguiram, de olhos postos na praia. Alinhadas as sombras de dois meninos e um peixe-balão. Seguiram sem medos e sem corrimão. Fizeram brincadeira connosco, com paus e restos de viagens de mar.
Fomos os primeiros clientes numa esplanada onde a nata a sair do forno trouxe um carioca para três.
Escolhemos a melhor vista, fizemos fila com os pescadores na berma da praia, frente ao mar. Levámos o peixe a voar e eles riram connosco. De nós ou deles?
Não importa.
Eles pescadores, nós aviadores, ambos de peixes.

Foi uma manhã só nossa, daquelas de que já só tinha uma vaga ideia. Daquelas de suar, sim porque não sou de me sentar e ficar a vê-los brincar. Eu gosto de correr, de rebolar, de saltar e de me esconder da sombra com eles. É um cansaço pleno de amor, uma brincadeira de ternura que sobra em abraços e em conversas cúmplices. E nestes momentos eles entram em mim e são tão meus meninos que me parecem de novo pequeninos. Ou sou eu que fico pequenina com eles, não importa precisar, enche-me as medidas da felicidade e é tão bom que podia ficar assim muitas manhãs.

Imaginámos o pai, sentado, empolgado, falando de coisas sérias, lindo e jovial de pele macia ao sol,  partilhando o que sabe e o que gosta, investindo milhões na conversa, tantos como os grãos de areia com que erguemos castelos.
No imenso areal construímos uma aldeia de ruas, alisámos muros e deixámos assinaturas. Uma praia só para nós os três na manhã em que um peixe voava de guelras coloridas no céu. Entre a areia e os pés as meias, molhadas coladas nos pés, ficaram com a marca de sal quando secaram ao sol.
Nesta manhã quente, em que quase todos temiam a areia, nós fomos ficando por ali de pés enterrados, amornando o domingo, até nos cansarmos de não saber que fazer com o apetite se não comer!


HÁ MAR E MAR HÁ IR E VOLTAR

Domingo iniciou com histórias de enamoramentos, numa despedida de solteira, para os lados do mar, com neblina nocturna. Continuou na neblina e por isso ficou-se pelo ir e voltar, com carapau, para sentarmos à mesa avós e netos na comunhão e balbúrdia típica que “nós os humanos” fazemos quando naquela mesa nos juntamos. A sesta coube a todos e agora prepara-se a chegada de Setembro. Ainda sem escolas no calendário da família, faz-se um livro para registar as tiradas memoráveis do avô, estende-se roupa e olha-se a semana que trás Setembro. Eu vou aprofundar o que se passa na Líbia. Lá longe, a Primavera Árabe continua a fazer vítimas, o temor do “Irene” foi comentado num jantar da semana passada, mas sinceramentre, calei o mundo que me chega quase sempre para desfrutar de um verão repleto de proximidades. É a ele que também regresso este santo dia.

me piace l’estate…

Primeiro serão de verão.
Fecho e abro janelas (virtuais) nesta noite fresca e espreito as cores do mediterrâneo.
Gosto desta estação, mesmo que as férias já não sejam tão grandes. É verão.
Gosto da luz da manhã e dos detalhes onde se detém meu olhar.
Gosto de malas, de sandálias, de toalhas e lenços que voam.
Gosto da tez morena e das carícias do sol.
Gosto das pedras e do fundo do mar que está pertinho, das bóias e dos caranguejos.
Gosto do jogo de sombras e de bicicletas encostadas no passeio marítimo.
Gosto de bancas de jornais, das primeiras páginas em linguas distintas e de ver tantos postais.
Gosto de paisagens de perder de vista e daquelas que nos devolvem o olhar a nós.
Gosto de gargalhadas e de gelados e de olhos esbugalhados.
Gosto de corridas na areia, de cabanas e barcos coloridos.
Gosto de saltos e mergulhos e de arrepios de verão.
Gosto de livros orelhudos com marcas de sal.
Gosto do miúdo que olha o mar a roer uma maçã e do outro que se entretém com o rosa choque da chinela.
Gosto de praias de areia, de relva com pinheiros.
Gosto dos aromas do verão onde se mistura protector com salmão.
Gosto de beijos e abraços e bikinis delicados salgados até à exaustão.
Gosto “del mare all mattino” quando inauguramos o verão numa areia de pedras e somos os primeiros a dizer bom dia à praia.
 

Mare al mattino 
Fermarmi qui. Per vedere anch’io un po’ la natura.
Luminosi azzurri e gialle sponde
del mare al mattino e del cielo limpido: tutto
è bello e in piena luce.
Fermarmi qui.
E illudermi di vederli
(e davvero li vidi un attimo appena mi fermai);
e non vedere anche qui le mie fantasie,
i miei ricordi, le visioni del piacere.

Constantino Kavafis




in’giro@itália’11