103# FLOWER POWER


No jardim-quintal dos avós, maio é de flores, confundem-se os aromas e misturam-se as cores. A horta está verdinha e parece que encolheu, de uma semana para a outra os feijões sobem as canas e a folhagem das batatas começa a esconder os regos. O limoeiro está de braços carregados de limões e os morangos têm aquele travo genuíno ao que nos é familiar.
Nestes finais de dia, enquanto um faz de conta que é jardineiro e vai simulando o corte da relva, o outro entretém-se comigo no voo mágico das pétalas.
Reservo alguns momentos para me deixar ficar deitada no colchão verde fresquinho a vê-los. São breves estes instantes. Há sempre um “mãe anda brincar ao disco” ou “mamã joga comigo à bola”. Gosto tanto deles!
 

100# 33º À SOMBRA – SUCH A PERFECT DAY

“Queria a sabedoria de viver e repartir o meu tempo. Realizar o nosso trabalho e o nosso lazer, o nosso esforço e a nossa pausa como tempos de dádiva e de encontro. Como tempos que não sejam apenas tempo, mas circulação de vida, de entusiasmo, de criação e de afecto“.
Adaptação Da oração do tempo, Um Deus que Dança, José Toletino Mendonça






E no Benavente ontem tivemos um encontro inesperado com uma “perdida” na horta. Enquanto treinávamos o salto em comprimento, com a última energia do dia, o corajoso pai descobre a intrusa da tarde para testar a coragem dos mais pequenos. Um foge o outro quer ver. Ambos rodeiam a curiosidade e ficam por ali a tentar espreitar a textura. E andaram descalços o tempo todo. O dia todo, como quase sempre. Por ali, entretidos com a relva e a frescura nos pés. “Malta” foi o regresso ao verão com os feitios que a água pode fazer ao sair da mangueira para um campo de brincadeira a três!
Such a perfect & sunny saturDAY.

TARDE PINTADA


Ainda não é Outono no calendário, mas o cinzento de uma sexta-feira e a paisagem do Benavente antecipam a estação aos sentidos. Neste final de dia de um princípio de mês, incrivelmente calmo, as conversas cruzaram o atlântico no ecrã, enquanto o avô (em versão ET) aspirava ervas, recuperando os contornos do Benavente. A selecção foi marcando golos e eu entretida ao fresco  com a liberdade do tempo a respirar Outono. Conseguir concentrar nas sobras dos dias o essencial  não é fácil, exige uma ginástica mental e física extraordinária, mas conseguindo-o como nesta sexta, onde até o sol se abriu para se por à (nossa) vista, só podemos dar graças pela simplicidade que podemos desfrutar nestes momentos: a brisa na pele, a tonalidade das folhas que vão fazendo tapete, o nosso abraço contra o frio, a terra que remexemos com as mãos, o pão quentinho do lanche e a dedicação ao Benavente de quem gosta tanto disto como nós. 
Ao mesmo ar (livre) onde lancámos a oração, veio-me à memória Torga e um poema feito de tons que hão-de chegar em breve.


Tarde pintada

Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor

Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga, Diário X (1966)

 

A CIGARRA, A FORMIGA E AS PINHAS

…e nós na versão formiga, preparando o inverno com a apanha das pinhas. Fomos de barco insuflável a correr que nem uns doidos na descida perigosa que ladeia o nosso lago. Fomos e trouxemos estas dádivas que recolhemos no fundo do nosso quintal e caem dos pinheiros alheios. Gratuitas e lindas. Já os pinheiros que nos oferecem as pinhas são os mesmos que nos escondem o nascer do sol, os tais que fazem a paisagem do Benavente chegar ao céu.

     

Setembro espreita nas mangas dos casacos e nas folhas secas que vão cobrindo a relva e escapando para dentro de casa, a cada janela que se abre. Cá em casa gostamos muito deste mês de mudanças e milho.