ELA (ou eu?)

Quando acorda olha para o lado
Se veste bonita pra ninguém
Chora escondida no banheiro
Pras amigas finge que está bem
Mas eu vejo
Eu vejo

Acha que precisa ser durona
Não dá espaço para a dor passar
Tem um grito preso na garganta
Que não está deixando ela falar
Mas eu ouço
Eu ouço

Quase como que anestesiada
Vai deixando a vida carregar
Ela sentiu mais do que aguentava
Não quer sentir nada nunca mais
Mas eu sinto
Eu sinto

Qualquer um que encontra ela na rua
Vê que alguma coisa se apagou
Ela está ficando diferente
Acho que ninguém a avisou
E eu digo
Eu digo

LIVRO – PARA VIAJAR NO TEMPO EM BOA COMPANHIA

Não chegou a uma semana, entre pegar e abrir até concluir a leitura de “Livro” de José Luís Peixoto. Há muito tempo que tal não me acontecia com um romance. Um dos livros que mais me agarrou à leitura nos últimos anos e me fez ter vontade de continuar a ler. Verão fora.
Uma escrita belíssima de uma história sobre os anos da emigração de Portugueses para França, e sobre a forma como empreendiam uma verdadeira odisseia para chegar a um país diferente, procurando o que não conseguiam no nosso país. Um livro onde há sempre margem para a imaginação e onde, surpreendentemente, na segunda parte, e a partir dessa  história  se pensa sobre a literatura, a cultura literária e o que ela pode inscrever na nossa vida.
Livro” é um círculo, um caminho que cria,  acrescenta e enriquece quem o lê. Um livro bonito. Imagem relacionada
Sinopse

“Este livro elege como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França, contada através de uma galeria de personagens inesquecíveis e da escrita luminosa de José Luís Peixoto. Entre uma vila do interior de Portugal e Paris, entre a cultura popular e as mais altas referências da literatura universal, revelam-se os sinais de um passado que levou milhares de portugueses à procura de melhores condições e de um futuro com dupla nacionalidade. Avassalador e marcante, Livro expõe a poderosa magnitude do sonho e a crueza, irónica, terna ou grotesca, da realidade. Através de histórias de vida, encontros e despedidas, os leitores de Livro são conduzidos a um final desconcertante onde se ultrapassam fronteiras da literatura.”Livro” confirma José Luís Peixoto como um dos principais romancistas portugueses contemporâneos e, também, como um autor de crescente importância no panorama literário internacional.”

Quetzal, 2011

Foto e sinopse retirados DAQUI.

RECENTE NO #CINEBENAVENTE

A Guerra dos Botões, de Yann Samuel, é um filme maravilhoso que retrata a infância e a importância de pais e professores, na Franca da década de 60. Recomendamos vivamente. Para ver em família!

O filme acompanha a rivalidade entre as crianças de duas aldeias rivais, numa metáfora sobre o que é ser criança, a sua passagem da inocência ao amadurecimento e a preparação para a vida adulta e expõe como esse processo se desencadeia no ambiente social, tendo por base os grupos – escola, família, amigos – como instrumentos de convivência, aprendizagem, formação moral e caráter de identidade, as primeiras  definições de suas vidas e a importância vital para a perfeita integração à sociedade como homens.

O filme adapta um dos livros clássicos da literatura francesa, La Guerre des Boutons, de Louis Pergaud (1882-1915), publicado originalmente em 1912 e, desde 1995, disponível no Brasil pela Editora Ática. O autor, também poeta e antimilitarista, escreveu o romance baseado na realidade de sua pequena Landresse, aldeia no Leste da França, fronteira com a Suiça, cujas tradições são até hoje mantidas.

Informação composta com base na critica publicada em http://blogs.diariodonordeste.com.br/blogdecinema/geral/a-guerra-dos-botoescritica-um-filme-maravilhoso/

SESSÕES DE CARNAVAL NO #CINEBENAVENTE

O Rapaz Que Prendeu o Vento (2019). William Kamkwamba, de 13 anos, inspira-se num livro de ciências para construir uma turbina eólica e salvar a sua aldeia da fome. Baseado numa história real
The actor’s first film behind the camera is a stirring adaptation of a William Kamkwamba memoir telling an astonishing story of triumph in Malawi.
Steve Jobs Movie (2013) starring Ashton Kutcher, Dermot Mulroney, Josh Gad, Lukas Haas – directed by Joshua Michael Stern – the story of Steve Jobs’ ascension from college dropout into one of the most revered creative entrepreneurs of the 20th century.

O MELHOR PRESENTE

Bonito e muito especial  💛 esta nova canção da Luísa Sobral. ‘O Melhor Presente’ é o primeiro single de ‘Rosa’, o novo que, segundo as notícias, chegará às lojas no dia 9 de novembro.

A Luísa explica: ‘Compus esta canção para explicar ao meu filho que ia ter um irmão e o que isso significaria na sua vida. Foi a primeira canção que fiz para este disco e no início até pensei não a colocar por ser tão pessoal. Mas depois lembrei-me que a beleza das canções é essa, as pessoas tornarem seu algo que começou por ser só nosso. Decidi então não só incluir a canção no disco, como fazê-la o primeiro single‘, confessa Luísa Sobral.

O videoclipe foi realizado por Filipe Cunha Monteiro com a direção de fotografia de Ricardo Magalhães e as ilustrações de Camila Beirão dos Reis, também responsável pela capa do disco.

APRENDER – VALE (MESMO) A PENA PENSAR NISTO

Nas últimas manhãs entro neste ritual por mais um ano. Releio esta crónica do Nuno Artur Silva e faço reflexões semelhantes, sobretudo do ponto de vista de mãe e de família. Também acredito que a escola de hoje já não é para ter um emprego é para ter uma vida melhor. E como? Despertando “a curiosidade pelo mundo e pela sua diversidade. É isso o essencial. E depois dar instrumentos para aguçar essa curiosidade, para a aprofundar. Ensinar a aprender.”

“O ritual matinal diário dos pais a levar os filhos pequenos à escola é a mais bela coreografia do mundo. Sempre que levo os meus filhos, fico a observar os outros pais e filhos nas suas danças de separação. Um ritual em que, todos os dias, as mesmas emoções se concentram naqueles minutos ou só segundos. Emoções, todavia, todos os dias, sempre diferentes, temperadas pelas variações e alterações da vida quotidiana, por vezes subtis, por vezes evidentes.

Os beijos, os abraços, as pequenas despedidas, as ansiedades, de uns e de outros, a alegria e os medos, até tudo se dissipar para lá da porta da escola e na cidade. Até à noite, em casa, para de novo na manhã seguinte tudo se repetir.

Depois passam-se dez, doze, quinze anos, eles são adultos e partem para o mundo. Para as universidades onde iniciam o último ciclo da sua formação geral básica, ou para outras atividades ocupacionais, laborais.

O que aprenderam nesses anos? Como se prepararam para o futuro?

Quando vejo os meus filhos e os seus colegas – tal como quando era professor, nas aulas, em frente às turmas – faço muitas vezes o exercício de imaginar como eles vão ser em adultos e o que vão estar a fazer.

Imagino como seria ter sentados, um dia, na mesma sala de aula em que foram alunos os colegas de uma turma, trinta, quarenta, cinquenta anos depois, e confrontar os seus sonhos de crianças e jovens com o que foi a sua vida até esse dia. Não há confronto dramático mais intenso do que o que temos com nós próprios, entre o que imaginámos que podíamos ser e aquilo em que a vida nos tornou, aquilo que somos.

O tempo de aprendizagem deve ser – é – toda a vida. Mas o tempo de escola é estrutural, modelar, decisivo. O que deve ser e como deve ser essa aprendizagem escolar?

A experiência de ter sido professor (de Português, no ensino secundário, durante quase dez anos) ensinou-me muito.

Dei aulas em escolas muito diferentes, em Lisboa ou na periferia de Lisboa, do final dos anos 1980 ao início dos 90: das escolas pequenas do centro, como a Veiga Beirão (do Ateneu), onde iniciei a dita carreira docente, a escolas enormes como fábricas, com turmas de quarenta alunos, como era a Ferreira Dias, no Cacém; de escolas com alunos de famílias da classe média ou média-alta, como a de São Julião, em Oeiras, a escolas com grande mistura de alunos de diferentes proveniências económicas, sociais e étnicas, como a das Olaias.

Fui professor (e também diretor de turma, coordenador da biblioteca, dinamizador de grupos de teatro e revistas da escola) e essa experiência foi das mais compensadoras que tive na minha vida, daquelas em que me senti mais útil para a comunidade.

Mas foi também um trabalho árduo, difícil, desgastante e, muitas vezes, profundamente desmotivante.

Muitas vezes, depois das reuniões de pais para discutir os problemas dos alunos, o que me ocorria era que devia fazer uma reunião com os alunos para discutir os problemas dos pais.

Outras vezes, o que me dava vontade era de discutir os problemas dos professores.

Ser professor não é fácil. Talvez hoje seja mais difícil do que nunca.

Os professores deviam ter melhores condições, claro. Ganhar mais dinheiro, claro que sim.

(Todos devíamos ganhar mais dinheiro. Menos os CEO das empresas onde a desigualdade salarial é gritante e os seus salários insultuosos).

Mas se eu fosse professor hoje, aquilo por que eu mais lutaria era por tempo. Tempo para poder preparar-me melhor para aquilo que é o mais importante: as aulas.

E o que eu mais rejeitaria é a carga burocrática que hoje pesa na vida dos professores. A asfixia administrativa que cerca os professores é inaceitável. E muito prejudicial para o essencial do ato de ensinar: a disponibilidade para o tempo da aula.

Um professor tem de ter tempo para poder preparar esse momento vital e para nele estar totalmente empenhado, focado e concentrado.

Outra questão essencial é a autonomia. De cada escola, na sua especificidade local. E do professor na sua forma de abordar o programa.

Não me esqueço da experiência que tive quando dei aulas noturnas a trabalhadores-estudantes, no Cacém. Homens e mulheres adultos que depois de um dia a trabalhar em oficinas, fábricas, ou outras empresas, como eletricistas, mecânicos e outras profissões de esforço físico, tinham aulas à noite para poderem terminar o então nono ano do liceu e poderem aspirar a uma promoção profissional.

Pelo caminho estava a disciplina de Português e eu como professor. Do programa constavam coisas como Os Lusíadas e a análise dos seus cantos e temas – o Concílio dos Deuses, a influência de Virgílio e da Eneida, a Antiguidade Clássica e o Renascimento, a forma da epopeia, a narração in media res, as estrofes, os decassílabos, etc., etc., etc…

Todas as noites ali estávamos, com eles a cambalear de cansaço, desejosos de ir para casa dormir, e eu a pensar como é que havia de fazer.

Acabávamos por passar dois terços do tempo a falar das mais variadas coisas a propósito de qualquer tema ligado a Os Lusíadas ou a Camões, o que quer que fosse – o país, os velhos do Restelo, o pessimismo, o império, o regresso das pessoas das ex-colónias, perder um olho, ter uma vida miserável e acabar por ser nome de feriado… o que quer que fosse que lhes pudesse interessar. E o outro terço, de maneira muito sucinta e resumida, o que era importante reterem sobre a matéria para o exame, não mais do que coubesse numa cábula.

Não sei se terá resultado (nuns casos talvez, noutros talvez não), mas dei o meu melhor.

Tal como nas outras aulas diurnas, com os jovens, o fiz sempre. Procurando sempre uma forma de os interessar – e se possível inspirar – com matérias que não estavam nos programas curriculares mas podiam ser portas de entrada para o que era necessário aprender.

Podiam ser músicas, filmes, livros, programas de televisão, notícias de jornais, variava muito, consoante as turmas. Mas era sempre qualquer coisa que pudesse despertar neles a curiosidade. Que é o princípio de tudo. A curiosidade pelo mundo e pela sua diversidade. É isso o essencial. E depois dar instrumentos para aguçar essa curiosidade, para a aprofundar. Ensinar a aprender.

Não para ter um emprego – não é para ter um emprego que serve a escola. É para ter uma vida melhor.

Quando penso no meu percurso de aluno desde a escola primária pública na ditadura, com reguadas acompanhadas de rezas à Virgem Maria, ao liceu no PREC, com professores saneados e aulas interrompidas, penso em como sobrevivi a tudo isso e no que ficou disso tudo. Desses programas infindáveis dados incompletamente. Dessas memorizações absurdas que fui obrigado a fazer para ter as notas necessárias para passar e seguir em frente. O que ficou disso tudo?

No meu caso, com honrosas exceções, nunca tive grandes professores, mas tive a sorte de ter os pais que tive e de encontrar nas escolas amigos estimulantes e cúmplices para a vida. Mas no liceu o que aprendi fora das aulas foi o mais importante. Foi um desperdício, quase sempre, o tempo das aulas. E não devia ter sido, não devia ser, nunca.

Como professor terei tido nos anos que dei aulas centenas de alunos. Por vezes sou surpreendido num qualquer sítio por um adulto que se dirige a mim e diz: “Não se lembra de mim, mas fui seu aluno.” Por vezes consigo descortinar naquela cara de mulher ou homem adulto a criança sentada à minha frente naquela sala de aula umas décadas antes.

Penso e pergunto sempre: “Serviu para alguma coisa?”

Hoje, quando deixo os meus filhos na escola e fico a ver-nos dançar com os outros pais e filhos a desajeitada coreografia, penso sempre como é impossível saber se o que estamos a fazer é o que é melhor para eles, o que é melhor para o mundo. Se os vai ajudar a poderem ser felizes…”

ARTIGO DE OPINIÃO de Nuno Artur Silva, ETIRADO DAQUI

 

Esta coreografia diária comove-me. É como um bailado sobre a esperança.