Senhoras das coisas pequenas

«Porque os leigos, supostamente, transfiguram o mundano. A fé torna-se a chave hermenêutica do profano, da bagatela… para aí mesmo ver insinuada a presença de Deus e o convite ao Bom e ao Belo.»*

Soubesse eu escrever, refletir e reconstruir o meu quotidiano assim, de forma tão profundamente bonita e tocante [leiam o artigo completo], e poderia quem sabe um dia sentir-me também “senhora das coisas pequenas”, intuindo e partilhando a presença de Deus na “bagatela”, no ”rasteiro”, naquilo que parecerá de somenos importância.

” (…)
28 de janeiro de 2014, 3.ª feira

Faço 65 anos e estou no Fratel, às portas do Ródão na casa da minha amiga MJ. Três dias na natureza, que bom! Balbucio: «Gratias a la vida que me ha dado tanto, me ha dado la risa me ha dado el llanto», imaginando a voz inesquecível de Violeta Parra. Graças a Deus que me chamou pelo nome. No Fratel de que gosto tanto, à lareira em boas conversas pela noite fora, respirando o campo, a manhã em que todos os outros dormem, as plantas e o cheiro das rosas, as três oliveiras velhinhas e os dois pujantes jacarandás e o limoeiro carregado de limões… o canteiro em que ontem, até me doerem os rins, retirei as ervas más para deixar crescer a hortelã no seu cheiro acre-preguiçoso. Perceber quais as raízes a tirar, mantendo a hortelã. Um verdadeiro “ofício de paciência”, nas palavras de Eugénio de Andrade. Fazer tudo isto concentrada, como se fosse a coisa mais importante deste mundo. Vida, no seu estado mais puro. Estar no presente. À noite comemos fatias de pão barrado com azeite e hortelã: capricho dos deuses! Enternece-me o número de telefonemas e “sms”: saboreio cada mensagem como uma festa, pensando na pessoa que ma envia e como quero bem a tanta gente. «Gratias a la vida.» Sinto-me abençoada. Faço “des provisions de douceur” para os dias mais cinzentos que vierem. Releio a antífona de hoje: «Voltai-vos para o Senhor e sereis iluminados, o vosso rosto não será confundido». A promessa de Deus no centro da minha vida. (…)

22 de setembro, 2.ª feira

Dou por mim a passajar roupa, nestes tempos de contenção de despesas: maravilhosa oportunidade de me debruçar sobre o nada e de deixar que a alma saboreie o gesto mecânico da agulha e linha. “Amo ‘deste’ trabalho”, diria o poeta Manoel de Barros. Regressei num “bajón” do Porto (como dizem “nuestros hermanos”) – e a escuridão, quando me vem, é escura, bem escura… -: apesar da alegria esfuziante dos 10 sobrinhos-netos, a preocupação imensa com a situação de desemprego recorrente da M… [minha irmã mais nova, e minha afilhada]. Já não se oferece emprego a uma experimentada mulher de 50 e alguns anos, amplamente reconhecida no seu setor de atividade profissional: anátema, isolamento, depressão… injustiça nua e crua. Duas noites a dormir mal até conseguir colocar as coisas no “patamar de Deus” e, aí, parece que a mente se ilumina em saídas possíveis: “tudo bem, nada mal”, autoconvenço-me – à maneira da maioria dos moçambicanos, quando se referem à sua duríssima vida…

Somos uma família que “cerra fileiras” quando um/a de nós está aflito/a: abri um “gabinete de crise” nos “paços do Lumiar” (minha casa): fiz contas e mais contas à minha pensão de reforma sistematicamente diminuída, olhei para as parcas poupanças e tenho o suficiente para, durante alguns meses, poder ajudar a minha irmã. Corta-se noutras coisas, paciência. Mas sei, no mais íntimo de mim, que não posso viver o sofrimento por ela: no sofrimento da M, há uma enorme solidão.  Como Verónica, que enxugou o rosto de Cristo, só posso agarrar numa toalha e limpar-lhe as lágrimas com carinho para não a magoar ainda mais: e aceitar que essa solidão é parte da nossa condição humana. Acendo a vela da mesa em frente do meu sofá. Deixo que a vela se consuma enquanto rezo por ela e nela: “tudo bem, nada mal…”

Termino citando novamente Teresa de Ávila: «Poder falar a Deus a partir da vida é vida de oração», e relembro o meu amigo Frei Carlos Maria Antunes, monge cisterciense, numa homilia que fez no passado mês de julho quando visitou a sua antiga paróquia da Golegã: «No dia em que olharmos a nossa vida, tal como é e não como gostaríamos que fosse, com gratidão, com assombro, com alegria, então é porque Deus já tomou conta do nosso coração». Assim seja!”

Teresa Vasconcelos,  Movimento do Graal |  5.ª Jornada de Teologia Prática, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 14.11.2015,  Publicado em 15.02.2015  em SNPC //
* citação do início do artigo

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ALFA PENDULAR ou A VIDA EM FEVEREIRO

Carnavalfev2015.jpgFevereiro segue a todo o vapor, em modo Alfa Pendular. A última estação em que parámos foi a do Carnaval. Longe dos corsos mais tradicionais e das brasileiradas à portuguesa, enquanto uns vestiram as roupas do costume os mais pequenos aproveitaram para vestir a pele dos seus heróis. A tripla esteve à altura das escolhas: um futebolista, algures entre o Ronaldo e o Messi; um pirata com pose de Johnny Depp e tamanho de Jake e um Super Mini Homem Aranha com vontade de subir paredes.
Ficámos em casa a desfilar o charme familiar ao som de António Zambujo enquanto aproveitámos para mudar a disposição da sala. De vez em quando dá-nos para isto e nem imaginam o bem que nos faz. Troca-se o sofá de sítio, pendura-se uns recortes aqui e ali, umas almofadas voam pelo meio, um jogo de futebol é interrompido e zás…novo canto para motivar a leitura e novos ângulos para apreciar a paisagem.Benaventefev2015.jpg
Fevereiro é também tempo de celebração familiar. Os pais do Pedro comemoraram 40 anos de matrimónio. Motivo para nos reunirmos todos à mesa, sem dar trabalho aos avós, e sentirmo-nos imensamente gratos pela vida deles e pelo sacramento que os une, que está obviamente inscrito na nossa história porque é a eles que devemos a  vida do nosso Pedro, amigo, marido, pai e companheiro.
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O comboio do mês segue viagem a todo o vapor. Mesmo quando no comboio dos dias velozes nos sentimos perdidos, sem energia e com tantas perguntas sem respostas, valem-nos os apeadeiros (sim, porque no nosso Alfa há apeadeiros…) quentinhos de lareira, as inundações dos banhos e o abraço de quem não desiste de nós e nos retribui com compreensão e abraços  os nervos e a irritação!
O comboio entrou em nova estação – Quaresma – oportunidade para MUDAR, reCENTRAR a vida.

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MOOD VS. REALITY

Who is happy?
Are rock stars, billionaires or recently-funded entrepreneurs happier? What about teenagers with clear skin?
Either what happens changes our mood… or our mood changes the way we narrate what happens.
This goes beyond happiness economics and the understanding that a certain baseline of health and success is needed for many people to be happy.
The question worth pondering is: are you seeking out the imperfect to justify your habit of being unhappy? Does something have to happen in the outside world for you to be happy inside?
Or, to put it differently, Is there a narrative of your reality that supports your mood?
Marketers spend billions of dollars trying to create a connection between what we see in the mirror and our happiness, implying that others are judging us in a way that ought to make us unhappy.

estrada.jpgAnd industrialists have built an economic system in which compliance to a boss’s instructions is seen as the only way to avoid the unhappiness that comes from being penalized at work. And so fear becomes a dominant paradigm of our profession.

Those things are unlikely to change any time soon, but the way we process them can change today. Our narrative, the laundry list we tick off, the things we highlight for ourselves and others… our narrative is completely up to us.
The simple shortcut: the way we respond to the things that we can’t change can instantly transform our lives. “That’s interesting,” is a thousand times more productive than, “that’s terrible.” Even more powerful is our ability to stop experiencing failure before it even happens, because, of course, it usually doesn’t.
Happiness, for most of us, is a choice. Reality is not. It seems, though, that choosing to be happy ends up changing the reality that we keep track of.

SETH GODIN, RETIRADO DAQUI.

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N.º 60 DA PRAÇA S. PEDRO

CasadosAvos3.jpgTenho para comigo que vida fora continuamos a pertencer sempre aos lugares onde vivemos. Como ao longo destes 35 anos –   por força da profissão dos meus pais, dos estudos, dos sonhos que persegui ou das atividades profissionais que fui tendo –  tive a sorte de ir vivendo entre vários locais e cidades, gosto do exercício de REVISITAR.
Por isso persigo a ideia de poder percorrer (e se possível permanecer algum tempo n’) esses lugares (cidades, empresas, praças, bancos, casas, jardins, avenidas, cafés, entre tantos outros…) com os meus filhos para partilhar com eles as experiências que aí vivi e as pessoas com quem travei conhecimento e partilhei os meus dias, e como ambas são determinantes na pessoa que sou hoje.
O N.º 60 da Praça de S. Pedro é uma das moradas preferidas das minhas memórias. Ali passei grande parte da minha infância e adolescência. A pretexto de irmos carregar lenha para os dias frios que têm estado, regressar ao quintal, aos anexos e à casa velha dos meus avós maternos (de que hoje, curiosamente, só subsiste uma porta) foi um momento maravilhoso poder entrar e abrir  a caixinha de memórias. Entre eles senti a curiosidade e as perguntas foram fluindo. Pudera…só para o N.º 60 e o seu banquinho teria uma tarde inteira de estórias para lhes contar, mas acabei por ir doseando tanta emoção.
Tenho tantas saudades dos meus avós e de tudo o que estar com eles significava nos idos anos 80 e 90: ir à mercearia da Rosita, os dias de feira com as tendas montadas à porta da casa, o fogareiro a assar carapaus no pátio, o meu avô a fazer cestos, os horários rigorosos das refeições, o ritual de vermos televisão juntos, as cartas que ajudava a escrever, a recordação da velha retrete de madeira e do colchão de palha (onde tantas vezes dormi e apanhei pulgas…para desespero da minha mãe).
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“Posso fazer um castelo
De pedras no jardim
E com lençóis
Um barco de piratas
(…)
Se é tão fácil assim
E está tudo ao meu dispor
Para quê brincar só com o
Computador!

Com um ramo
Posso ter uma espada
Para defender a minha amada
E salvar a nação
(…)”

manhasol_janeiro5.jpgComo canta a Luísa Sobral, no seu mais recente trabalho – “Lu-pu-i-pi-sa-pa” – e nós com ela,quase todos os dias lá por casa: “Se é tão fácil assim/E está tudo ao meu dispor/Para quê brincar só com o/Computador!” 
Os dias são mesmo o que fizermos com eles. E há dias em que podemos fazer praticamente tudo o que nos apraz: admirar a felicidade do 21, num dos jogos mais renhidos, no campo do Vaguense; mudar a mesa do terraço para o meio da caruma e almoçar debaixo do céu na companhia dos pássaros; circular vila fora de bicicleta acenando aos amigos; regressar ao Expresso e à sua nova revista; recolher com o frio e experimentar receitas novas; dividirmos-nos a contar histórias: a mãe em frente à lareira aos mais novos e o pai com o mais velho, em em redor do chá para os lados de Ílhavo, a contar histórias das jornadas mundiais a outros jovens que se preparam para ir até Cracóvia.
E nós os 5 embarcamos nessa viagem  – JMJ Cracóvia 2016 –  “Blessed the merciful”? A ver vamos…

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manhasol_janeiro3.jpgmanhasol_janeiro7.jpgmanhasol_janeiro6.jpg

E ter quem nos traga o jornal com esta pinta? Do melhor…

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RECEITAS NOVAS [1]

Este fim-de-semana passámos muito pouco tempo em casa, mas o suficiente para, durante 60 minutos, arriscar mais duas experiências novas na cozinha: pão e pudim. As duas correram razoavelmente bem a julgar pelas provas e pelo que sobrou de ambas. As duas receitas foram retiradas da edição de janeiro da Magazine do continente “Paixão pela cozinha”. A ideia começou por ser experimentar fazer um pudim. Tinha uma lata de leite de coco cuja data de validade estava quase a expirar. Enfiei o pudim no forno e comecei a achar que precisava de aproveitar melhor aquele tempo de forno ligado e o facto de os miúdos estarem entretidos: um na catequese, um na sesta e outro a ver dragões Berg. Como na agenda deste domingo havia um lanhe de amigos, nada como um pão…sem ser daqueles com tempo de fermentação e outras preparações mais complexas… Fiquei-me por um pão de aveia fatiado.
O Pão de Aveia foi uma agradável surpresa, porque mesmo achando que não ficou consistente e ligado como deveria, talvez porque deixei cozer demais, ficou delicioso e é daquelas receitas que poderemos sempre adaptar consoante as sobras de cereais que temos em casa. Pode ser comido à fatia simples  ou barrado com compotas. A riqueza em cereais confere-lhe uma aparência invernosa a pedir conforto e roda de amigos, o que combinou na perfeição com estes dois dias.

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PÃO DE AVEIA COM PEPITAS DE CACAU

INGREDIENTES |300 g de farinha sem fermento; 200 g de flocos de aveia; sal qb;1/2 colher de chá de fermento; 1 colher de chá de bicarbonato de sódio; 100 g de pepitas de cacau (não tinha e substitui por pepitas de chocolate, daquelas de frasco de decoração de bolos); 1/2 chávena de chá de mel; sementes de girassol, sultanas e amêndoa laminada (restinhos que tinha do Natal); 1 chávena de leite com sumo de meio limão; 120 g de manteiga derretida; flocos de aveia para polvilhar qb; mel para pincelar qb; manteiga para untar qb;

MODO DE PREPARAÇÃO |  Numa tigela misturar farinha + flocos + fermento + bicarbonato + pitada de sal + pepitas, sementes, sultanas e amendoas laminadas; Noutra tigela bater os ovos e em seguida adicionar o mel, o leite e a manteiga derretida; juntar a mistura da farinha com esta e envolver bem; verter o preparado para uma forma de bolo inglês untada com manteiga; levar ao forno a 200º durante cerca de 45m. Retirar da forma, pincelar com mel e decorar com flocos de aveia.

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Janeiro. Saborear os momentos.Os inícios e finais de dia. As partilhas com os amigos. De perto e de longe. Os dias felizes com frio e os objetos que já deixaram de fazer parte dos nossos dias. Desta vez foi uma cassete perdida no quintal dos avós.

BENAVENTE.jpgSALVADOR.jpgbolodacecilia.jpgfrio.jpgSEBASTIAO.jpgcorrespondenciaCostaRica.jpg

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