EUROPA – QUE TE ACONTECEU?

«Que te aconteceu, Europa humanísta, paladina dos direitos dos homem, da democracia e da liberdade?», perguntou o papa, que apontou para os «egoísmos» que erguem vedações» e levam a que o continente se vá «entrincheirando».

 

Papa recebeu prémio Carlos Magno: «Sonho uma Europa onde ser migrante não seja crime»

«Sonho uma Europa onde ser migrante não seja crime», afirmou hoje o papa, no Vaticano, por ocasião do prémio Carlos Magno, que desde 1950 é atribuído por uma associação sediada na cidade alemã de Aaschen a personalidades que se distinguiram em favor da unidade e da paz no Velho Continente.

Francisco expressou também o desejo de que no Velho Continente casar e ter filhos «seja uma responsabilidade e uma grande alegria, e não um problema devido à falta de um trabalho suficientemente estável».

«Que te aconteceu, Europa humanísta, paladina dos direitos dos homem, da democracia e da liberdade?», perguntou o papa, que apontou para os «egoísmos» que erguem vedações» e levam a que o continente se vá «entrincheirando».

Diante dos presidentes dos principais órgãos da União Europeia, Jean-Claude Juncker (Comissão), Donald Tusk (Conselho) e Martin Schulz (Parlamento), o papa apelou a «um impulso novo e corajoso» para o «amado» continente, que teve sempre a «criatividade», o «engenho» e a «capacidade de se reerguer e de sair dos próprios limites».

Solidariedade

«Neste nosso mundo despedaçado e ferido, é preciso regressar àquela solidariedade de facto, à mesma generosidade concreta que se seguiu ao segundo conflito mundial», apontou, depois de recordar as palavras de Ribert Schuman, considerado um dos “pais fundadores” da atual União Europeia, para quem o continente se construiria através de «realizações concretas».

Os projetos que estiveram na base da Europa de hoje «inspiram, hoje mais do que nunca, a construir pontes e a derrubar muros», constituindo um apelo para recusar os meros «retoques cosméticos» ou «compromissos tortuosos» para corrigir o tratado, substituindo esses expedientes por «bases novas, fortemente radicadas».

Integração

A história da Europa, prosseguiu, mostra a sua tripla capacidade de «integrar», «dialogar» e «gerar».

Os povos europeus aprenderam «a integrar, em sínteses sempre novas, as culturas mais diversas e sem aparente ligação entre elas», pelo que «a identidade europeia é, sempre foi, uma identidade dinâmica e multicultural».

Por isso, a política «sabe que tem entre mãos» uma tarefa «fundamental e inadiável», que é a de «promover uma integração que encontra na solidariedade a maneira de fazer as coisas, a maneira pela qual construir a história», assinalou.

Esta solidariedade «nunca pode ser confundida com esmola, mas como geração de oportunidade», para que todos «possam desenvolver a sua vida com dignidade», rejeitando a tentação de impor «paradigmas unilaterais» e «colonizações ideológicas».

O rosto da Europa «não se distingue na contraposição aos outros, mas em ter impressos os traços de diferentes culturas e a beleza de vencer os fechamentos», frisou o papa.

A cultura do diálogo

A cultura do diálogo «implica uma autêntica aprendizagem» que reconheça o outro como «interlocutor válido», e, nesse sentido, «olhar o estrangeiro, o migrante, o pertencente a outra cultura como um sujeito a escutar, considerado e apreciado».

Para Francisco, a paz «será duradoura» se as crianças e jovens tiverem ao seu alcance «as armas do diálogo», com as quais se trava «a boa batalha do encontro e da negociação». Essa educação deve inclusive ser incluída nos planos curriculares, de modo a «inculcar nas novas gerações uma maneira de resolver os conflitos diferente» daquela a que estão a ser habituadas.

Capacidade de gerar

Às novas gerações deve ser oferecida uma «participação real» na mudança, mas como se pode reconhecer-lhes protagonismo «quando os índices de desemprego e subemprego de milhões de jovens europeus estão a aumentar», questionou.

A «justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral», e por isso urgem «novos modelos económicos mais inclusivos e equitativos, não orientados ao serviço de poucos, mas em benefício das pessoas e da sociedade».

A paz só pode ser obtida se se basear na «verdadeira inclusão: aquele que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário».

Os sonhos de Francisco para a Europa

O papa sonha «uma Europa que toma a seu encargo «a proteção da criança, que socorre como um irmão o pobre e quem chega à procura de acolhimento porque não tem mais nada e pede refúgio.

Uma Europa que «escuta e valoriza as pessoas doentes e idosas, para que não sejam reduzidas a improdutivos objetos descartáveis»; uma Europa «onde os jovens respiram o ar limpo da honestidade, amam a beleza da cultura e de uma vida simples, não inquinada pelas infinitas necessidades do consumismo».

Francisco sonha com «uma Europa das famílias, com políticas verdadeiramente efetivas, centradas nos rostos mais do que nos números, nos nascimentos dos filhos mais do que no aumento de bens».

«Sonho uma Europa que promove e protege os direitos de cada pessoa, sem esquecer os deveres para com todos. Sonho uma Europa de que não se possa dizer que o seu compromisso pelos direitos humanos foi a sua última utopia», declarou.”

 

ARTIGO RETIRADO DAQUI

RUN BOY RUN

Vimos este filme na semana passada com o Salvador. Não foi programado, foi daqueles zappings à procura de alternativas ao que a maior parte dos canais generalistas nos vai dando nos horários apropriados para ver televisão em família…
Teve um impacto enorme em todos e não podia ter sido melhor catequese para os dias que correm, com o tema dos refugiados sempre presente nas nossas conversas.
Como é que após meio século mudou tão pouco?
Como é que somos capazes de repetir os mesmos erros?

“Embora muitos filmes tentem captar o espírito de resiliência durante a era Nazi, poucos realizadores conseguiram contar estas histórias a partir do ponto de vista das crianças. 
Corre, Rapaz, Corre conta a extraordinária história verídica de “Jurek” Srulik, um menino polaco de 8 anos que foge do gueto de Varsóvia em 1942. Tal como o herói do filme Europa, Europa, Jurek tenta ocultar a sua identidade judaica enquanto procura refúgio seja onde for e junto de quem puder. Uma das suas ligações mais memoráveis é com Magda, uma bela jovem polaca que arrisca a sua vida para ajudar judeus como Jurek, a passarem por católicos.  O filme do realizador Pepe Danquart, vencedor de um Óscar e baseada numa obra do autor israelita Uri Orlev, oferece-nos uma série de episódios notáveis na vida de Srulik, realçando o filme com um ambiente claustrofóbico inquietante – e com uma fotografia deslumbrante.”

Fica como sugestão para um programa familiar ou até como uma catequese informal para quem tem crianças com mais de 8 anos, como lição de esperança, perseverança, empatia, otimismo e história!

“The audience can’t help but fall in love with Srulika either out of empathy during tearful disasters or admiration during his unwarranted optimism. “Run Boy Run” is largely about perseverance and it’s dumbfounding within this particular setting to see such unrelenting perseverance from a little boy as he loses an arm, struggles through the elements, and faces the demons of his past. While Srulika, understandably, isn’t always the perfect picture of optimism, he never gives up and, knowing this is a true story, it is extremely touching and inspirational.

As might be expected, this historical drama can be hard to watch and times, but it gives a very real depiction of the times. Considering all the other horrific things that were happening during WWII, “Run Boy Run” really spares the audience, but still gives them a taste of mankind’s most brutish moments. Knowing that this film is based on a true story, following Srulika through his travels in the woods, and getting glimpses of his memories and dreams, truly gives the audience a sense that they’re actually watching history.

Run Boy Run” comes with many important lessons, and among them is a reminder that there are some remarkable people in the world and that these terrible things actually happened and affected the lives of people still around today. But, even in the face of history’s greatest horrors, the relentless human spirit can’t be broken, even in the innocent, most impressionable youth.” (retirado DAQUI)

A partir do mesmo período histórico – a II Guerra Mundial – está a passar na RTP2 uma série “Aldeia Fancesa” que também será uma boa sugestão espreitar…A série vai fazendo o retrato de uma aldeia francesa e dos seus habitantes durante a ocupação nazi entre 1940 e 1945 –

Corre, Rapaz, Corre – Trailer Legendado from Cinemundo on Vimeo.

BAGAGEM MUSICAL

De volta à música. Tempo de atualizações. As estações de rádio já cansam Sinto falta de novidades. E até de música ao vivo, sobretudo de novos e Bons Sons…

De volta a Céu, agora com Tropix.Um impressionante tom inovador em tudo que faz,conseguindo, ainda, garantir personalidade e coerência…

“Perfume do Invisível” é o primeiro single do novo álbum “Tropix”

GRANDE DESEJO

CatarinaRosaChoque
Arquivo@Giragirassol

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho os meus prantos,
claridades atrás do meus estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.

Poema Grande desejo, Adélia Prado, Antologia “Com licença poética” (2003)

Descobri Adélia em Lisboa. Ali perto do Chiado. Uma livraria onde entramos quase sempre, com umas bagatelas que valem quase sempre a pena. Já é a segunda vez que trago literatura de lá.
Na verdade procurava outra Adélia. Mas acho que valeu a pena tropeçar no mesmo nome.Conheci esta e gostei.
No regresso a Aveiro, a viagem de comboio deu não apenas para ler toda a seleção de poemas feita por Abel de Barros Baptista, como para ficar com curiosidade de ir à procura de mais. Talvez empatia d'”essa vidinha besta” que ela tão bem foi registando e eu não consigo.
Ficámos intímas desde então.
“Adélia Prado é uma escritora da observação. (…) É um ser posto no mundo sentado à porta de seu quintal, sob aqueles degraus em que se costumam descascar e comer laranjas. Para Adélia a felicidade tem sua existência independente de “condições climáticas” favoráveis. Ela reside em um mundo sustentado por um Deus criador que o sustenta a cada instante.”* 

*Retirado daqui: http://www.hottopos.com.br/videtur11/aprado.htm

VALE A PENA (continuar a) PENSAR NISTO…

Uma entrevista (publicada no Observador deste domingo) que condensa as questões que há 4 anos nos acompanham e inquietam e que vieram para ficar agora que temos mais um filho à porta do ensino básico.  Não é preciso sermos mestres em educação para percebermos o óbvio: “Não faz sentido alunos do século XXI terem professores do século XX, com propostas teóricas do século XIX, da Revolução Industrial.”
Desde a entrada do Salvador para o 1º ciclo do ensino básico  –  entusiasmado e empenhado em aprender a ler, escrever e entender o mundo que o rodeia – fomos assistindo a altos e baixos dos níveis de motivação, mas registamos com alguma tristeza no percurso destes 4 anos um crescente desinteresse pela escola enquanto espaço de aprendizagem. Aquilo que sentimos é que o modelo de escola que os nossos filhos frequentam e vão frequentar é completamente desadequado. E isso mais do que nos desapontar, entristece-nos porque estamos todos a desperdiçar o melhor de cada criança e a condenar quem tem a paixão de educar, alinhando nesta fábrica de alunos que o nosso sistema educativo tradicional vai produzindo.
Vale a pena continuar a pensar nisto – What is school for?
Mas é preciso muito mais, é urgente MUDAR!

José Pacheco: “Aulas no século XXI são um escândalo. Com aulas ninguém aprende”

Uma escola sem divisão por ciclos de ensino, sem turmas, sem aulas, nem testes. Uma escola onde os alunos aprendem e onde são felizes. É esta a escola que o professor José Pacheco defende.

José Pacheco tem 64 anos e é mestre em Educação da Criança, pela Universidade do Porto. Chegou a fazer parte do Conselho Nacional de Educação e ganhou prémios pelo projeto que coordenou na Escola da Ponte. Há 10 anos decidiu mudar-se e rumou ao Brasil, onde é responsável por mais de 100 projetos para um novo modelo de ensino. No ano em que a Escola da Ponte faz 40 anos, o Observador pôs-se à conversa com o seu principal fundador.

Crítico do modelo tradicional de ensino, que afirma ser do século XIX, o professor defende a aprendizagem numa escola sem aulas, nem turmas, nem ciclos. Uma mudança radical na forma como vemos a escola pública? Sim. Mas possível de implementar, e com sucesso, garante.

Porque é que há 40 anos sentiu necessidade de mudar a forma como dava aulas? O que o levou a iniciar o projeto “Fazer a Ponte”?

Porque me vi incompetente e antiético. Incompetente porque não conseguia ensinar todas as crianças e muitas reprovavam, e antiético porque reconhecia que não ensinava todos e continuava a trabalhar do mesmo modo. E quando encontrei duas professoras que faziam a mesma pergunta que eu — “Porque é que damos a aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?” — descobrimos a resposta: se nós dávamos as aulas e eles não aprendiam, eles não aprendiam porque nós dávamos a aula. É isso mesmo. Para nós foi perder o chão. Nós só sabíamos dar aula. Por isso não fui eu que fiz a Ponte, foi muita gente. Talvez eu fosse um despoletador do projeto. E o que fizemos foi algo intuitivo e amoroso: continuámos a dar aulas, porque criança não é cobaia, mas simultaneamente introduzimos nas nossas práticas, em equipa, algumas metodologias, técnicas, espaços de convivência, que foram dando forma a um novo projeto.

Na Escola da Ponte não há turmas, nem testes

A Escola Básica da Ponte, no concelho de Santo Tirso, marca a diferença no ensino público português há 40 anos. Nesta escola não há ciclos, nem turmas, nem testes. A escola organiza-se em núcleos de projeto e são os alunos, em conjunto com os “tutores”, que definem, quinzenalmente, os objetivos de aprendizagem e vão sendo avaliados à medida que vão dizendo que “já sabem” aquilo a que se propuseram. Na última avaliação externa, levada a cabo pela Inspeção-Geral da Educação, a escola foi avaliada com Muito Bom em todos os parâmetros.

 

Um projeto mais baseado na autonomia?

Na autonomia, na responsabilidade e na solidariedade, que foram os três valores matriciais do projeto. As escolas são as pessoas e as pessoas são os seus valores. A escola não são edifícios, são projetos que partem de valores e de princípios e nós fomos indo ao encontro de uma concretização desses valores.

E as mudanças começaram logo a apresentar resultados?

Houve uma melhoria cognitiva, mas nós fomos além. Nós fizemos pela primeira vez aquilo que hoje se chama de educação integral. Compreendemos que teríamos de mexer não só no nível cognitivo, mas também no domínio atitudinal, sócio moral, ético, estético, emocional, espiritual.

Mas a forma de ensinar mudou repentinamente?

Não. De início dávamos aula durante a maior parte do tempo, porque era aquilo que nos tinham ensinado a fazer, mas fomos introduzindo alterações. Passámos de uma cultura de solidão para uma cultura de equipa, de corresponsabilização. Essa reelaboração da nossa cultura pessoal e profissional custou tempo e sofrimento. Decidimos habitar um mesmo espaço, derrubar paredes, juntar alunos. Compreendemos que sozinhos não poderíamos ensinar tudo a todos. Mas se estivéssemos em equipa, com um projeto, e autonomizássemos o ato de aprender, poderíamos responder efetivamente às necessidades de cada jovem. Ao fim de oito anos estava já a escola toda com um modelo diferente. E nós descobrimos uma coisa fundamental, que é que um professor não ensina aquilo que diz, ele transmite aquilo que é. Um professor tem que ser um tutor e um mediador de aprendizagens. E a aprendizagem acontece quando há um vínculo afetivo entre quem supostamente ensina e quem supostamente aprende.

40 anos depois, como está a Ponte? E como está o ensino em Portugal?

Tenho estado ausente e sinceramente posso estar muito desfasado da realidade portuguesa, mas tenho os meus netos e o meu filho que é professor e vou tendo retorno. Tenho tido algumas informações que me levam a crer que todas as engenharias curriculares feitas até hoje, pouco ou nada fizeram mudar a escola. Todos já perceberam que o modo como trabalham não ensina todos e que isso contraria aquilo que é o direito à educação e que é um dever do Estado. As escolas têm excelentes professores, mas a trabalhar do modo errado. Não faz sentido alunos do século XXI terem professores do século XX, com propostas teóricas do século XIX, da Revolução Industrial. A grande questão é que as escolas têm sido geridas por burocratas e não por pedagogos e as políticas públicas têm sido desastrosas: mais exames, mais alunos por turma.

Quer dizer que não concorda com os exames.

Mais exames não vão melhorar o sistema porque não é a preocupação com o termómetro que faz baixar a temperatura. Mais exames para quê? Os exames não avaliam nada. O teste é o instrumento de avaliação mais falível que existe. Conceber itens de teste, garantir fidelidade e tudo mais é um exercício extremamente rigoroso, assim como assegurar que as condições são as mesmas para todos quando se aplica o teste. E corrigir o teste também introduz uma subjetividade enorme. Além disso, esses instrumentos de avaliação apenas “provam” a capacidade de acumulação cognitiva, de armazenamento de informação em memória de curto prazo, para debitar no exame e esquecer.

Então como se deve avaliar as aprendizagens dos alunos?

Através de uma avaliação formativa contínua e sistemática, que é o que não se faz nas escolas. Nas escolas aplica-se teste e dá-se uma nota sem saber o que se faz. Há quem confunda avaliação com classificação e dê a nota a partir dos resultados dos testes. Eu sei que se alega considerar uma percentagem da nota dada a partir da avaliação de atitudes. Porém, não se apresenta os instrumentos de avaliação, que permitam medir atitudes como a autonomia, a criatividade. Diria que essa avaliação é feita a ‘olhómetro’.

E era de esperar que o ensino público português, passados estes 40 anos, mantivesse um modelo tradicional de aulas?

Eu acredito nos professores, na escola, mas não com as medidas político-educativas que são tomadas. Injeta-se na escola cada vez mais objetivos por pressão corporativa. Injeta-se nas escolas áreas que não faz sentido algum. Por exemplo, criar uma aula de área de projeto? Projeto é o projeto da escola, é o projeto educativo. Educação para a cidadania? Nós não ensinamos para a cidadania, nós educamos na cidadania. Cidadania não é uma hora por semana, é todo o tempo de escola. Andamos a brincar com coisas sérias. Está tudo errado.

E porque ninguém muda? A mudança não passa também pelos professores?

Os professores têm uma cultura em tudo contrária à mudança. Eles são ótimas pessoas, maravilhosas. Repare, professor é a única profissão em que o estágio é feito antes de tirar o curso. Fazem 12 anos a ouvir aulas, entram na faculdade e ouvem aulas, e vão dar aulas. Podem até ouvir falar dos Piagets da vida, mas os estágios são feitos em escolas tradicionais, onde estão excelentes professores tradicionais que trabalham no paradigma do século XIX ou XVIII. Este modelo de escola, desde o século XIX, que subdivide a escola em ciclos, em anos, em turmas, em horário padrão, isso é cartesianismo. Aulas? Aulas no século XXI são um escândalo! Em aulas ninguém aprende! Eu aceito quem conteste o que eu digo, mas ninguém contesta porque é uma verdade.

“A aprendizagem acontece quando há um vínculo afetivo entre quem supostamente ensina e quem supostamente aprende.”

Mas é possível alunos de idades diferentes, todos juntos, aprenderem, na mesma sala, o que é suposto para a sua idade?

Porque não? Ninguém aprende com quem sabe a mesma coisa, ninguém aprende com quem tem a mesma idade. Eu falo daquilo que eu faço [no Brasil] e que tem excelentes resultados. Estou a falar de projetos que produzem excelência académica e inclusão social e onde não há organização por idades. Onde as escolas não têm casa de banho do aluno separada de casa de banho do professor, onde os auxiliares de ação educativa ensinam a limpar aqueles que sujam, onde a educação acontece. Onde não há aulas, nem turmas, nem anos, que são dispositivos sem sentido nenhum, sem fundamentação científica. Concebeu-se uma nova construção social de aprendizagem onde todos aprendem e são felizes. Isso é possível. Eu provo isso em mais de 100 projetos no Brasil e mais meia dúzia em Portugal.

E como vê a figura do chumbo?

A reprovação é a prova de que realmente a escola não funciona como deveria. Muitas vezes se diz que os professores são exigentes quando reprovam. A pergunta que eu faço é: se a escola melhor é a que mais alunos reprova, o melhor hospital é o que mais doentes mata? Quando as pessoas nem sequer refletem sobre isso… Quanto às classes de apoio, planos de recuperação, isso é tudo um enfeite que não resulta, porque aquilo que não se ensina em oito meses, não é em um mês de plano com mais do mesmo que se vai ensinar. Não é com mais horas de aula que se vai ensinar mais, é com outro tipo de aprendizagem.

Mas se o aluno não conseguir atingir as metas de aprendizagem… como se faz?

Compreendo a insistência. Nas escolas que, infelizmente, ainda vamos tendo, há alunos que não conseguem atingir metas. E é preciso acrescentar aulas de recuperação, “explicações”, “planos educativos individuais” e outros paliativos. Mas, nos projetos que acompanho, todos os alunos alcançam as metas. Porque trabalhamos a montante, para não ter de remediar a jusante; investimos na prevenção, para não tentar remediar depois. Nesses projetos, não há “alunos que não conseguem atingir metas”. Portanto, nada é preciso fazer, a não ser desenvolver um trabalho escolar coerente com a Lei de Bases. Em cada escola a seu modo, não há receitas.

Mas concorda que é difícil mudar este paradigma.

Se fosse fácil já tinha mudado. É difícil, é difícil…

Então como se pode fazer esta mudança?

Eu defendo sempre múltiplos caminhos. Um deles é que nós deveremos, nas escolas que despertam para a necessidade de mudar, trabalhar com aqueles professores que tomaram consciência e com coragem, lentamente, respeitando a criança, começar a desenvolver o projeto educativo da escola. Porque os projetos educativos das escolas não são cumpridos. E então esse núcleo de projeto, respeitando quem não queira, tem de avançar com autonomia pedagógica.

Aqui e ali têm sido anunciados alguns projetos inovadores, como as salas de aula do futuro. Isto pode ser o início da mudança?

Não, de modo algum. A aula híbrida, como vejo por aí, é aula. Não tem de haver aula. E as novas tecnologias podem ser importantes, se não forem mitigar o modelo de escola, enfeitar as aulas com quadros interativos ou um portátil por aluno. Quando um aluno está com acesso à informação na Internet ele não aprende, ele precisa da intervenção do adulto, do mediador da aprendizagem, que o ajude a passar da informação caótica para o conhecimento e do conhecimento para uma ação e isso chama-se projeto. E ao passar do conhecimento para a ação desenvolve competências. Isso não acontece numa aula.

Mas nessas salas o professor está lá apenas a guiar o grupo de alunos que tem de buscar as respostas.

Perante o quê? Um projeto? E lança perguntas significativas para os alunos? A aprendizagem tem de partir de necessidades, desejos, sonhos, algo concreto, que eu sinto que a comunidade precisa. É a partir dessa necessidade, com a introdução de projetos de pesquisa e roteiros de estudo, que as coisas acontecem.

Pode-me dar um exemplo prático de como isto pode funcionar?

Há um jovem que se queixa que lhe põem o lixo à porta na sua rua e ele percebe que tem de acabar com essa situação. Ele junta-se com outros jovens e vai fazer um projeto para acabar com a lixeira. Ele vai ter de fazer roteiros de pesquisa para perceber porque é que há lixo, o que é o lixo, o que é isso de recolha seletiva de lixo. Ele vai ter de reunir muitos objetivos do currículo nacional, de ciências, matemática, estudo do meio, português, para resolver. Mas não ensinamos tudo assim. Há objetivos que é impossível incluir nesses projetos que partem das necessidades, então aí nós fazemos os projetos paralelos, alternativos, porque não podemos permitir que a criança não aprenda todos os objetivos do programa.

Esses projetos funcionam de acordo com o modelo tradicional de aulas?

Não! Vou perguntar-lhe e assim pergunto a muita gente: sabe fazer a raiz quadrada? Já não se lembra! Sabe qual a fórmula para calcular o volume da esfera? Não, pois não? Eu posso continuar a perguntar-lhe coisas do ensino básico e você não sabe. E agora pergunto: não teve aulas sobre isso? Aprendeu? Não. Numa aula não se aprende nada. Aprende-se no contexto de projetos, com roteiros de pesquisa, com mediação pedagógica devidamente feita e com avaliação formativa contínua e sistemática, preferencialmente com portefólios digitais de avaliação. É isto.

E é possível fazer diferente e cumprir com os programas, currículos e alcançar metas de aprendizagem?

Só é possível cumprir com tudo isso fazendo diferente, porque do modo que a escola funciona o currículo não é cumprido. Os projetos não são cumpridos.

Que conselho deixa ao ministro da Educação?

Não sei. Mas posso propor que ele reúna com gente que já faz diferente para melhor cá ou se quiser ir lá fora vai ver que lá fora acontecem coisas muito boas em centenas de lugares, em muitos países. Esqueçam a Finlândia e o Norte da Europa.

BOM DESTINO

Nesta semana maior e Santa de março, em que as recordações nos fazem andar de sorriso no rosto por aí, eis o tema perfeito para a banda sonora das nossas memórias. Pensamentos felizes com meninos lá dentro. Momentos iniciais. Nascimentos.Vidas.

Bom destino de Márcia, num videoclip com”duas grávidas – a própria Márcia e a Joana Rosa –   a cantar e contar uma história sobre Semear o Sol, cada uma à sua maneira. O segundo single do LP “Quarto Crescente” marca a estreia de Márcia no papel de realizadora. A Joana Rosa cabe o papel de traduzir, para linguagem gestual, os sentimentos para além da música.

É possível chegar a todos.
Perfeito.

“Semeia o sol, colhe a tempestade
Quem paga p’ra ver?
Ninguém aposta no teu fracasso
Ninguém se abate se ele acontecer
Dizem que os bons não nascem por acaso
Tens tanto a fazer”